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Traducir... literatura japonesa contemporánea

Entrevista a Gabriel Álvarez, tradutor de Murakami

Manuel Saavedra

Gabriel Álvarez especializa-se na traduçom para galego e espanhol de autores japoneses contemporâneos e, apesar da sua juventude, já conta com umha carreira profícua. Ainda que tenhamos tomado caminhos distintos no âmbito da traduçom, o Gabriel e eu partilhamos umha visom comum da língua galega. Sem dúvida, a nossa passagem pola universidade contribuíu em grande medida para que desenvolvêssemos umha atitude crítica perante o que se costuma chamar «galego oficial». E apesar de que em muitas ocasiões, por motivos profissionais, tenhamos de mudar a roupagem com que gostamos de escrever o nosso idioma, nom podemos deixar de acreditar no caminho que, do nosso ponto de vista, é o único possível para o galego: continuar a tradiçom escrita do idioma e deixar de depender do castelhano enquanto língua culta.

Daí que esta entrevista esteja redigida segundo a norma elaborada pola Comissom Lingüística da Associaçom Galega da Língua (AGAL),1 associaçom da qual os dous fazemos parte e que defende umha série de princípios a que também nós aderimos.

Manuel Saavedra

Manuel Saavedra é licenciado em Traduçom e Interpretaçom pola Universidade de Vigo. Trabalha como tradutor independente (de inglês e português para espanhol) especializado em textos jurídicos e científicos, atividade que combinou nos últimos meses com a docência universitária. É sócio da Asetrad e coordenador de El Cuaderno de Bitácora.

Gabriel Álvarez

Gabriel Álvarez Martínez (Carvalhinho, 1985). Licenciado em Traduçom e Interpretaçom na Universidade de Vigo. Estudou um ano como Erasmus no Institut Supérieur de Traducteurs et Interprètes de Bruxelas. Antes de morar no Japom, trabalhou um tempo em Newcastle (Inglaterra) e Paris. Atualmente cursa um doutoramento em Traduçom e Paratraduçom na Universidade de Vigo e um mestrado em Comunicaçom Lingüística na Universidade de Kobe. Como tradutor, tem vertido em galego e espanhol obras de Ryunosuke Akutagawa (Rashomon), Junichiro Tanizaki (O Eloxio da Sombra), Haruki Murakami (Tras do Solpor, Do que Estou a Falar cando Falo de Correr, 1Q84) e Banana Yoshimoto (Recuerdos de un callejón sin salida).

Quando começache a ficar interessado polo japonês?

Foi quando estudava no liceu. Durante a adolescência interessei-me pola banda desenhada europeia e estado-unidense. Mais tarde descobrim o manga e decidim começar a estudar japonês pola minha conta, ao princípio só com o objetivo de algum dia poder ler manga em japonês, mas também porque nessa época estava quase decidido a cursar Traduçom e Interpretaçom e achei que aprender um idioma «mais incomum» podia ser interessante.

Tu começache a estudar japonês pola tua conta. Há materiais de qualidade para o estudo por conta própria? Como vês o ensino de japonês em Espanha, se o compararmos com o doutros países em que morache e estudache o idioma, como a Bélgica?

Existem bons materiais em formato papel, principalmente para quem quiger iniciar-se na língua. Mas na internet há um monte de materiais para todos os níveis, desde sítios dedicados inteiramente à gramática até podcasts para aprendermos sobre o idioma e a cultura. Hoje em dia na internet podemos encontrar qualquer cousa.

Ao ter estudado na Galiza por conta própria, desconheço como é o modelo de ensino e, portanto, nom podo opinar. Na Bélgica, durante o meu ano de Erasmus, aproveitei para frequentar todas as aulas de japonês que pudem. Prestou-me sobretodo para reforçar a base que já adquirira.

O teu nome em Espanha já se associa ao de Murakami: como surgiu a possibilidade de traduzires as suas obras, para o galego e para o espanhol?

O primeiro texto que traduzim do japonês para o galego foi o famoso relato Rashomon do escritor Ryunosuke Akutagawa. Após ganhar um concurso de traduçom organizado pola Universidade de Vigo, entrei em contacto com umha japonesa estabelecida na Galiza e traduzimos juntos O eloxio da sombra, de Junichiro Tanizaki, para a Rinoceronte Editora. Nessa época eu estava a estudar também chinês no Centro de Línguas da universidade e, graças a umha das minhas companheiras, a minha admirada Maria Alonso Seisdedos (tradutora de Orhan Pamuk e Kazuo Ishiguro, entre outros muitos autores, e de inúmeros produtos audiovisuais como o Shin-chan), a Editorial Galaxia propujo-me traduzir umha obra de Murakami (Tras do Solpor).

A possibilidade de o traduzir para o espanhol surgiu em março de 2009, quando Haruki Murakami véu a Santiago de Compostela receber o prêmio San Clemente do liceu Rosalia de Castro. Nesse momento eu estava a morar em Newcastle, na Inglaterra, mas nom quigem perder a oportunidade de o conhecer e apanhei um voo para a Galiza. Alá também estava um editor da Tusquets que se interessou por mim. Mais tarde figem umha prova com sucesso e oferecêrom-me traduzir o romance 1Q84. Realmente tivem umha sorte imensa.

Achas difícil traduzir Murakami, se o compararmos com outros autores japoneses que traduziche ou que costumas ler?

Comparado com Akutagawa ou Tanizaki, autores mais clássicos, em cujas obras se tratam temas mais relacionados com a cultura e a história japonesas, e com um japonês mais antigo, nom é tam difícil. Normalmente, as histórias de Murakami som bastante universais (nom sei, mas talvez seja esse um dos motivos polos quais triunfa no resto do mundo). Mas, mesmo assim, a dificuldade é salientável. É muito complicado transmitir todos os matizes das suas obras.

Os estilos de Tanizaki ou Akutagawa, por um lado, e Murakami ou Banana Yoshimoto, por outro, som radicalmente diferentes. Além disso, há umha diferença determinante no uso do idioma, que tem a ver com o facto de pertencerem a diferentes épocas. O japonês é umha língua que muda muito rápido, comparada com outros idiomas. Assim, podemos encontrar nas livrarias japonesas e na internet dicionários e outras obras dedicadas a «vocábulos mortos» (shigo, em japonês), palavras que, por exemplo, estavam na moda umha década antes e agora já ficaram antiquadas e nom se utilizam. Isto é palpável especialmente na internet: a cada pouco tempo surgem em blogues e fóruns palavras e conceitos novos.

Rashomon, que se publicou pola primeira vez em 1915, edita-se hoje em dia, como muitas outras obras antigas, com umha grafia adaptada aos tempos modernos. Existem carateres dessa época que agora já nom se empregam. O mesmo acontece com os kanji (ideogramas de origem chinesa na sua maior parte).

A linguagem de Murakami e Yoshimoto, polo contrário, é relativamente singela e fluida. Tanto Murakami como Yoshimoto utilizam normalmente frases curtas e, às vezes, umha divisom peculiar dos parágrafos. Também empregam muitos anglicismos (sempre adaptados à grafia e pronúncia japonesas) e palavras escritas em katakana (um dos dous silabários japoneses, que se utiliza principalmente para palavras estrangeiras).

Apesar da singeleza da linguagem nas obras de Murakami, as histórias costumam ser complexas e intricadas. Devo confessar que me custou entrar no mundo de Murakami ao princípio, mas agora adoro as suas obras. Polo geral, sempre trata os mesmos temas: a fronteira entre o real e o irreal, o sentimento de perda, a procura dum lugar no mundo, etc., com toques de surrealismo e humor. Existe também umha série de elementos recorrentes, dos quais o mais famoso provavelmente seja os gatos, ou o jazz e a música em geral, e «piscadelas» ao leitor (por exemplo, elementos e nomes de personagens que se repetem).

Mas, para além de Murakami, já traduziche outros autores, ainda que menos conhecidos.

Por agora, traduzim Ryunosuke Akutagawa, Junichiro Tanizaki, Haruki Murakami e Banana Yoshimoto.

Existe um «japonês literário»?

Como em todas as línguas, existem palavras, expressons e construçons gramaticais próprias da linguagem literária. Além disso, algumhas das dificuldades de traduzir do japonês som a imensa quantidade de registos, variedades sociais e situacionais (em funçom do sexo, da idade, da posiçom dentro dum grupo, etc.), o uso habitual de onomatopeias e palavras miméticas (palavras que, por exemplo, tentam imitar estados físicos ou psicológicos mediante a sua sonoridade, como o famoso pika-pika do Pikachu), o facto de que algumhas palavras estrangeiras se adaptam à pronúncia do idioma e, muitas vezes, é preciso decifrá-las ou de que ocasionalmente as espécies mencionadas de plantas, árvores, animais, etc., nom coincidem exatamente com as nossas espécies...

Por último, cumpre salientar a dificuldade das referências culturais escondidas (evidentemente, presentes em obras escritas em todos os idiomas). O conhecimento da cultura nom é absoluto e, portanto, é preciso estar sempre atento, ter ativado o sexto sentido.

É frequente que apareçam dialetalismos nos textos que passam polas tuas maos? Como abordas a sua traduçom?

Até agora, a única obra que traduzim em que aparecia um dialeto foi Tras do Solpor. A personagem Grilo (Koorogi, no original) falava no dialeto de Kansai, mas o detalhe explica-se dentro do texto e nom era demasiado relevante para a obra, de maneira que afinal a soluçom que tomamos foi neutralizá-lo e dar ao seu jeito de falar um toque coloquial.

Que autores japoneses nom faltariam nunca na tua biblioteca e qual deles gostarias de traduzir?

Yasutaka Tsutsui, Haruki Murakami, Shusaku Endo, Edogawa Ranpo, Kaori Ekuni, Junnosuke Yoshiyuki, Yumeno Kyusaku e o poeta Shuntaro Tanikawa, para nomear apenas alguns. Gostaria de traduzir qualquer destes autores.

Um dos meus preferidos é Yasutaka Tsutsui (que já tem sido traduzido para o espanhol), um autor com um humor muito negro e grotesco que também escreve ficçom científica e obras satíricas. Do que gosto mais é das suas histórias curtas. Lembro em particular um relato genial intitulado Korera (Cólera) sobre um andaço de cólera na cidade de Tóquio e outro ambientado em Kobe (Yakusai Hanten), bastante complicado de traduzir, em que um home entra num restaurante chinês «um bocado esquisito» e o escritor joga com o significado dos ideogramas chineses. Para além disso, é o autor de Paprika, o livro em que se baseia o famoso filme de animaçom do finado Satoshi Kon, e Toki wo kakeru shoujo (A rapariga que saltava no tempo), também adaptada ao anime.

Também tenho vontade de traduzir manga. Por agora, até onde eu sei, na Galiza só foi traduzido um manga, Bícame Profe (publicado polas Edicións do Cumio). Estou certo de que muita gente da minha geraçom gostaria de poder ler mais manga em galego.

Ultimamente ouvim falar de umha obra de ficçom científica escrita em 1956 que parece muito interessante e espero poder ler dentro de pouco. Intitula-se Kachikujin yapuu (Gado humano Yapu), do autor Shozo Numa, e foi louvada por Yukio Mishima e Shuji Terayama, entre outros.

Como alimentas a tua linguagem literária?

Como tradutor, tento tirar proveito de todas as leituras que fago. Ultimamente leio autores como Pepetela, Ondjaki, Paulo Lins ou Nélida Piñón. Também leio muitas traduçons de literatura japonesa e às vezes, quando tenho o original, comparo trechos. Acho que é um bom exercício para melhorar.

Atualmente estás a cursar um mestrado no Japom. Como é um dia normal na vida do Gabriel?

Si, estou a cursar um mestrado em Lingüística na Universidade de Kobe. A minha investigaçom tem a ver com a traduçom do japonês.

Kobe é umha cidade aconchegante de um milhom e meio de habitantes, situada na prefeitura de Hyogo, na regiom de Kansai, e a cerca de meia hora de comboio de Osaka. É também umha cidade relativamente cosmopolita e, a meu ver, com umha forte vocaçom internacionalista. Estende-se numha faixa de terra entre o Mar Interior de Seto e a montanha, o que fai de Kobe umha cidade muito atraente. Curiosamente, aqui ao lado, em Ashiya, criou-se e passou boa parte da juventude Haruki Murakami.

Além das aulas e da investigaçom, às quintas-feiras fago um trabalhinho no Centro Comunitário Internacional de Kobe traduzindo diferentes textos do japonês para o espanhol. Basicamente, informaçom sobre atividades culturais e informaçom dirigida aos estrangeiros que residem na cidade. Além do espanhol, também se traduz para português, inglês, chinês, vietnamita e coreano.

Moro numha residência de estudantes num bairro tranqüilo a trinta minutos andando do centro da cidade e, para me deslocar a outras zonas da cidade ou a Osaka, costumo utilizar o comboio.

Quando nom estou a estudar ou a traduzir, aproveito para sair com amigos, viajar e conhecer melhor a cultura do país. A minha última viagem foi a Hokkaido, a ilha mais setentrional do arquipélago. Também adoro a gastronomia japonesa e o mundo dos izakaya.

Sofreche um choque cultural quando chegache ou nem por isso? Como foi a tua adaptaçom ao país?

Antes de vir, já conhecia muito da cultura, de maneira que nom sofrim choque cultural. No entanto, sempre encontro pequenos detalhes e curiosidades que me surpreendem. Por exemplo, as sanitas com torneira por cima para lavar as maos.

Como se leva a saudade num país tam longe da Galiza?

Antes de vir ao Japom morei noutros países e, portanto, estou bastante acostumado a estar fora da casa. Mas, evidentemente, sempre se tem saudades da família, dos amigos, da terra. Outro tipo de morrinha nom menos importante é a gastronómica. Umha das cousas de que mais sinto falta é o bom pam. De qualquer maneira, já localizei um restaurante galego em Quioto (dirigido por japoneses) e em Kobe é possível beber Estrella e comer polvo de Akashi «à galega» (embora nom seja o mesmo gosto, nem o mesmo grau de cozimento).

Vês o teu futuro a médio prazo ligado ao Japom?

Com certeza. Profissionalmente, gostaria de continuar a construir pontes culturais com esta terra.
 

Nota: no momento da publicaçom desta entrevista, está prestes a sair do prelo um novo romance de Haruki Murakami traduzido por Gabriel Álvarez: Baila, baila, baila (Tusquets).

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1 A Associaçom Galega da Língua (AGAL) é umha associaçom  sem ánimo lucrativo, constituída em 1981, que visa a plena normalizaçom do galego-português da Galiza e a sua reintegraçom no ámbito lingüístico a que historicamente pertence: o galego-luso-brasileiro.

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